Este espaço foi construído, antes de mais, para os meus alunos de filosofia. Procura responder às necessidades muito particulares dos jovens com quem trabalho e dos meus planos de aula com esses jovens. Não tem subjacente qualquer outra ambição filosófica que ultrapasse este, assumidamente, modesto objetivo pedagógico: reunir recursos para apoiar as aulas da disciplina que leciono. Todas as visitas, sugestões e críticas serão, apesar do que fica dito, bem-vindas, venham elas dos meus alunos ou não.
 

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Hipátia de Alexandria Hipátia de Alexandria

Hipátia (ou Hipácia), filha de Teon, nasceu em Alexandria por volta do ano de 370 d. C. Estudou em Atenas e, de regresso à sua cidade natal, distinguiu-se como matemática, astrónoma e filósofa. Em 415 foi violentamente assassinada por um grupo de fanáticos enfurecidos. Foi um dos últimos intelectuais conhecidos a trabalhar na Biblioteca de Alexandria. Nenhuma das suas obras sobreviveu. Pensadores como Voltaire e Bertrand Russell comentaram com apreço o seu trabalho. Rafael imortalizou-a em A Escola de Atenas.

 

Uma vida não examinada não merece ser vivida

Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e ações de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objetivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto é possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História (...) Uma pessoa que não pense na vida é como um forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso.

A. C. GRAYLING, O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2003

A Morte de Sócrates de Jacques-Louis David

FIG. 1 - A Morte de Sócrates de Jacques-Louis David, 1787

 

Quem foram os primeiros filósofos?

OS MAIS ANTIGOS filósofos ocidentais eram gregos: filósofos que falavam dialetos da língua grega e que estavam familiarizados com os poemas gregos de Homero e de Hesíodo, tendo sido ensinados a prestar culto a deuses gregos como Zeus, Apolo e Afrodite. Estes filósofos não viviam no continente grego, mas em centros afastados de cultura grega, nas costas do Sul de Itália ou na costa ocidental do que é hoje a Turquia, e floresceram no século VI a.C. (...).

Estes primeiros filósofos foram também os primeiros cientistas, e muitos foram também líderes religiosos. A princípio, a distinção entre ciência, religião e filosofia não era tão clara como viria a tornar-se em séculos posteriores. No século VI, na Ásia Menor, os devotos religiosos, os discípulos da filosofia e os herdeiros da ciência viriam todos a poder olhar retrospetivamente para estes pensadores como seus antecessores.

Anthony KENNY, História Concisa da Filosofia Ocidenta, Lisboa, Temas e Debates, 2003

Mapa da Grécia Antiga

FIG. 2 - Mapa da Antiga Grécia

 

O que é a filosofia?

A filosofia é uma atividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A atividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. A palavra «filosofia» é muitas vezes usada num sentido muito mais lato do que este, para referir uma perspetiva geral da vida ou para referir algumas formas de misticismo. Não irei usar a palavra neste sentido lato: o meu objetivo é lançar alguma luz sobre algumas das áreas centrais de discussão da tradição que começou com os gregos antigos e que tem prosperado no século XX, sobretudo na Europa e na América.


Que tipo de coisas discutem os filósofos desta tradição? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas.


Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas – uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.

Thomas NAGEL, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1995

 

Como aprendemos filosofia?

Como aprendemos filosofia? Uma pergunta melhor é a seguinte: como podemos adquirir destreza no pensamento?

O pensamento em questão implica ter atenção a estruturas básicas do pensamento. Isto pode ser bem ou mal feito, de forma inteligente ou inepta. Mas ser capaz de o fazer bem não é, em primeiro lugar, adquirir um corpo de conhecimentos. É mais como saber tocar piano. É tanto um «saber fazer» quanto um «saber que». A personagem filosófica mais famosa do mundo clássico, o Sócrates dos diálogos de Platão, não tinha orgulho na quantidade de coisas que sabia. Pelo contrário, tinha orgulho em ser o único a saber quão pouco sabia (uma vez mais, a reflexão). O que ele fazia bem – em princípio, pois a avaliação do seu sucesso varia – era expor os pontos fracos das pretensões das outras pessoas ao conhecimento. Processar bem os pensamentos é uma questão de ser capaz de evitar confusões, detetar ambiguidades, pensar numa coisa de cada vez, apresentar argumentos de confiança, ter consciência das alternativas, etc.

Resumindo: as nossas ideias e conceitos podem ser comparados com lentes através das quais vemos o mundo. Em filosofia, são as próprias lentes que constituem o tema de estudo. Seremos bem ou mal sucedidos não em função da quantidade de coisas que sabemos no fim do estudo, mas em função do que podemos fazer quando as coisas se tornam difíceis, quando a maré dos argumentos sobe e se gera a confusão. Ser bem-sucedido quer dizer levar a sério o que as ideias implicam.


Simon BLACKBURN, Pense – Uma Introdução à Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2001

 

 

O Homem Caminhando de Giacometti

FIG. 3 - O Homem Caminhando de Giacometti, 1961
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